sexta-feira, 17 de abril de 2015

Outras Tribunas: Génio


Uma das características humanas que mais me surpreende é o génio. Perante a genialidade, no seu preciso contacto, sentimo-nos simultaneamente diminuídos e engrandecidos. Vemos nessa exata correspondência, a precisão de Deus, da natureza, do Homem, na realização da perfeição. Nada está mais próximo desse ideal de perfeição que a natureza do génio.

Conviver com ele, com o génio, nessa presença diária através do encontro de palavras escritas, dá-nos a percepção, errada, que a mediocridade também é uma forma de realização. Nada mais errado. A mediocridade é um exercício existencial, a genialidade é um produto acabado. No génio está a perfeição do acto, o que pressupõe não a completude da obra como ideal de realização, mas a sua exacta individualidade. Nada ou ninguém, algum dia, naquele exacto quadrante o poderá equiparar, seja na beleza, na originalidade, no seu exacto caracter, que lhe determina uma existência única e acabada.

Há génios em muitas áreas. Ao longo da minha vida também tive os meus ícones, os meus heróis, a quem me queria equiparar um dia, nas diversas áreas de interesse que fui alimentando ao longo da minha vida. Primeiro o futebol. Em criança só tinha um desejo: ser profissional de futebol. Para isso dedicava os meus “longos” dias na prática desse jogo que me apaixonava. Só pensava futebol, fosse em casa, na escola, na igreja, no exacto momento em que despachadas as minhas obrigações correntes – que mais das vezes, obviava – e me podia consagrar de corpo e alma, ao exercício desse jogo.

Lamentavelmente e para meu infortúnio, o que me sobrava em técnica e destreza mental (para o jogo :-)) faltava-me em capacidade e resistência física. Aquilo que conseguia fazer nos jogos de recreio, ou nos “quintais” alcatroados onde fazíamos as nossas “peladas”, brilhando a grande altura na minha técnica apuradíssima – por mil vezes ensaiada – quando chegado aos grandes campos, relvados ou não, soçobrava perante a imensidão do esforço físico exigido para abrilhantar tal técnica nos verdadeiros campos de “batalha”.

Passada a ilusão do futebol de praticante, transportei essa paixão para o adepto acirrado de um clube longínquo e perdedor, que partir dos anos 80 começou a pedir meças aos outrora clubes “gloriosos” da capital. Mas isso são contas de outro rosário que se o tempo, e a paciência, me permitirem um dia, aqui dissecarei com maior cuidado e pertinácia.

Do que aqui falo hoje é desse génio, desenfreado e único que, de tempos a tempos, nos faz questionar sobre a prova de relevância da nossa própria existência. Dá-me ideia que o grosso da humanidade – no qual me incluo – vive para absorver esse impacto, esse vislumbre de lucidez e razão. Sim, confesso que esse lugar na plateia dos espectadores viventes em razão do génio não me insatisfaz mas, deixa-me incerto quanto à natureza da minha existência. Sim, gosto de saborear e deleitar-me nessas precisões quase matemáticas da palavra, seja ela falada ou escrita que, de tempos a tempos tenho a sorte de contemplar em livro ou num discurso de ocasião, mas isso traz-me, inevitavelmente, ao meu processo ontológico existencial. A singularidade do génio torna-o único. Sem essa singularidade, todos seríamos génios, medíocres ou idiotas, e o mundo fatalmente uma prova sem superação.

Despontar-se como génio tem, fatalmente, uma prova de intervenção divina. E essa é uma prova de que “Deus” tem preferências, tem escolhas, na hora de apontar à perfeição. Não o condeno. Quem tem o poder de escolha também tem o ónus da prova, e Deus, por ser Deus, não pode falhar! Por isso escolhe o melhor, o único capaz dessa prova de irrealidade para tantos espectadores, como eu, da natureza triste do quotidiano.

Sem essa magistralidade, sem essa pincelada, sem essa actuação simbólica, o mundo não passaria de um lugar lúgubre nas expectativas mais grandiosas do próprio Homem. Vivemos uma vida errante, na expectativa de descobrirmos o cerne da questão e sabemos que, mais cedo ou mais tarde, encontraremos essa resposta na palavra singular do génio. E a nossa vida é o testemunho basilar dessa correlação entre o autor e a personagem, na forma como a nossa própria existência se articula na perfeição do enredo.

Confesso que me levantei a meio da noite para escrever outro tipo de texto. Era sobre o génio, de igual modo, mas com uma dose, assaz venenosa, sobre a intervenção angelical na formação do “génio”.

Há, como sabemos, outro tipo de “génio”. O “génio” da garrafa, sempre pronto para nos fabricar mais um desejo. Esse “génio”, produto não-acabado, da relação uni-direcional Homem-Deus, julga-se escolhido porque na sua alienação se presume um ser de luz. Tem-se por escolhido, não pela prova irrefutável da singularidade absoluta do seu acto, mas pela própria presunção da escolha!? Um “génio” deste tipo fabrica todo o tipo de desejos, mas só concede três, como prova da sua intermediação (única) entre o céu e a terra. Desses três desejos, esse “génio” não realiza um sequer, porque se tem, por definição, na imaterialidade das relações.


É a diferença de génios. Nuns, o génio serve-nos a condição humana no vislumbre que a perfeição, e Deus quiçá, existe; noutros, o “génio” concede-nos a certeza da existência de Deus, sem o seu ténue reflexo como prova de semelhança…



 Por: Joker
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